Com o crescimento da conscientização da seletividade alimentar e outras questões ligadas à neurodivergência, diferentes especialistas têm apostado no cuidado antecipado, desde à atenção familiar e escolar. Os desafios com o tratamento da seletividade alimentar não são totalmente diferentes entre crianças típicas e atípicas, apesar de uma pesquisa publicada pela Revista da Associação Brasileira de Nutrição (Rasbran) apontar que 53,4% de crianças e adolescentes diagnosticadas com autismo possuem seletividade alimentar, por exemplo.
Joseane Bouzon destaca a necessidade de individualização no tratamento, porque nem todas crianças são iguais:
“O que vai mudar vai ser o tempo de ação, vai ser a repetição, vai ser a quantidade de sessões propostas, que para uma é diferente do outro. A gente precisa avaliar cada criança, mas o tratamento da seletividade em si é sempre com foco no conforto e ensinar essa criança a comer de uma forma mais agradável possível”, explica.
Para que isso aconteça, o desenvolvimento da autonomia é fundamental. Joseane explica que o trabalho envolve ensinar a família a “entregar autonomia para essa criança”, permitindo que ela escolha a quantidade de comida no prato e tenha seus sinais de fome e saciedade respeitados. Essa autonomia permite que a criança saiba que poderá escolher o volume que quer comer, o que é crucial para o avanço no tratamento.
O PAPEL DA FONOAUDIOLOGIA
A disfunção motora oral é um dos fatores que contribuem para a seletividade alimentar. Conforme descrito pela especialista, quando a criança tem uma musculatura muito ruim, com baixo tônus e baixa mobilidade, ela não consegue movimentar a língua para limpar a cavidade oral ou mastigar de forma adequada, afetando diretamente seu desenvolvimento alimentar.
Para resolver essas questões, o tratamento fonoaudiológico foca na estimulação e estruturação da musculatura. A abordagem utiliza sempre o lúdico e exercícios orais (de língua, lábios e bochechas) para ajudar a estruturar essa musculatura, rosto, face e assim, a criança comer melhor.
A especialista enfatiza a necessidade de uma abordagem multidisciplinar, trabalhando em conjunto com outros profissionais essenciais, como nutricionistas e psicoterapeutas. Enquanto o fonoaudiólogo trabalha a estrutura da musculatura, o nutricionista se insere na terapia alimentar, ao verificar e adaptar a oferta de nutrientes adaptada a cada paciente. Com tratamento, entre seis meses e um ano já é possível perceber grandes avanços.
É assim que a família torna-se protagonista no tratamento, assim como a escola. Juntar o acompanhamento psicoterapêutico com o apoio da Fonoaudiologia garante o avanço no tratamento da Seletividade Alimentar, especialmente de crianças atípicas em pleno desenvolvimento. “Não é o tratamento, não é o profissional que é o protagonista, é a família”, completa a fonoaudióloga.

